Entrevista ao novo presidente da Ordem dos Arquitectos

João Santa-Rita quer mais abertura «aos membros e à sociedade»

20.01.2014

«Todo o trabalho deveria ser distribuído através de concurso público»

João Santa-Rita é o novo presidente da Ordem dos Arquitectos

 

João Santa-Rita, o novo presidente da Ordem dos Arquitectos portugueses, empossado em Janeiro, fala na maior «crise de ânimo e de esperança de que há memória». Lamenta a saída de profissionais do país e defende a exportação de serviços dada a excelência alcançada pela classe. Em entrevista ao Jornal Arquitecturas responde sempre no plural mas com projectos concretos. Quer dar continuidade à Política Nacional de Arquitectura e fazer avançar um código de construção que dissolva as contradições criadas por múltiplas leis. Defende o lançamento de concursos públicos para todo o tipo de obra pública. Para que a distribuição do trabalho seja mais equilibrada. Quer ainda uma Ordem «mais aberta aos membros e à sociedade».

 

No seu discurso de tomada de posse falou na maior «crise de esperança e ânimo de que há memória na arquitectura». Que contributo espera dar para minimizá-la?

Não podemos prometer aquilo que não sabemos fazer... Mas podemos assumir essa realidade. Nas últimas três décadas conheci várias crises e esta é mais crítica. É aquela em que há menos esperança porque não se perspectiva uma saída. Já se tomou consciência de que o modo de exercer a profissão vai alterar-se. A nossa realidade construída é muito distinta da que existia. Há trinta anos, quando comecei, havia muito trabalho e não havia dinheiro. Esperava-se três e quatro anos para se receber. O Estado, que não tinha como pagar, pagava com letras. Havia trabalho, não havia dinheiro, mas havia esperança. Havia esperança de que havendo trabalho um dia viria o financiamento. Hoje em dia é diferente. Os recursos financeiros são escassos. Somos muito mais e sabemos que vamos ter concretizações menores. Daí que exista falta de ânimo. É muito difícil que a Ordem altere esse estado. O que podemos fazer é contribuir para que alguns aspectos do quotidiano da profissão sejam melhorados. Mas há problemas mais profundos que têm que ver com o próprio acesso ao trabalho. Podemos tentar defender junto das instituições do Estado acções de requalificação do património.

 

Mas isso pode não traduzir-se numa intenção de requalificação por parte do Governo até porque os meios são escassos.

É importante ver quais são os meios de que a própria comunidade europeia dispõe. Por outro lado há compromissos assumidos. É caso das metas energéticas que atingem o parque edificado. Há muito ainda por fazer também no que diz respeito à adaptação do edificado aos aspectos da mobilidade condicionada. Outra questão fundamental é a de encarar a internacionalização como uma política nacional.

 

Se está contra a saída de profissionais o que defende então no que diz respeito à internacionalização?

O que defendo é que saibamos enquadrar as perspectivas de trabalho fora, não no sentido de as exercermos fora, mas de as exercermos a partir daqui.

 

Mas isso será concretizável sem uma presença no local?

É preciso apoio local mas isso não impede que grande parte do trabalho seja desenvolvido fora. A arquitectura não é uma actividade que possa fazer-se sem estar acompanhado localmente. Há legislação específica de cada país que é preciso conhecer. Pode fazer-se um trabalho em partilha. Se Portugal fosse um país que não tivesse um profundo reconhecimento da qualidade da sua arquitectura talvez isto não fizesse muito sentido... Estes 30 anos de realizações levaram-nos a algum lado. Não é por acaso que os profissionais que saem do país conseguem enquadramento. O país é procurado pela qualidade dos seus profissionais. Há uma riqueza que se pode exportar.

 

Essa estratégia implicará sempre a saída de pessoas…

Não necessariamente. Como presidente da Ordem não defendo a saída de pessoas. As pessoas devem sair quando essa saída foi programada. Isso é saudável. Viajar é uma coisa. Eu próprio o fiz dois anos depois de tirar o curso. Queria conhecer determinada realidade e conhecer o trabalho de determinada pessoa fora do país. Outra coisa é ser pressionado para o fazer. Se há qualidade no país para exportar serviços então que se procurem essas possibilidades.

 

Essa estratégia, a par da aposta na requalificação, é suficiente para dar trabalho à classe?

Possibilitará sempre oportunidades de trabalho sobretudo se a recuperação for entendida como estratégia nacional. O país também deve programar as suas acções. A realização de estudos que identifiquem um conjunto de aspectos no parque edificado, acções que representam um investimento diminuto, pode ter implicações grandes em áreas profissionais. É um contributo. Se nada se fizer nada acontece. Há toda uma situação que importa inverter o quanto antes.

 

Quando se dará a retoma?

Nunca se dará da mesma maneira. Temos hoje um país, felizmente, melhor equipado. Temos hoje, felizmente, muito menos pessoas sem casa. Temos equipamentos públicos, museus, universidades, escolas. Havendo muita coisa feita as perspectivas são diferentes. Sabemos que há uma área mais carenciada, a reabilitação, mais débil e com menos fundos. Tudo isto tem enorme significado na forma como se exercerá a profissão daqui em diante. Hoje em dia grande parte da actividade, desde o público ao privado, se centra fundamentalmente em aspectos de programação, manutenção, acompanhamento e pequena e média encomenda privada.

 

Há arquitectos a mais?

Qualquer um de nós que circule pelo país percebe o muito que ainda há para fazer. Nem que seja do ponto de vista da requalificação. O problema é que os recursos são escassos. Estaremos nós a formar arquitectos demais? Acho que a formação é um bem. Prefiro ter um país com formação, desde que as pessoas saibam que saídas têm. Há escassez de trabalho para os arquitectos mas as pessoas devem formar-se naquilo que ambicionam fazer.

 

Defende alterações na forma como se faz a encomenda ao nível das autarquias e da administração central. Refere-se aos ajustes directos?

Defendemos o acesso através do concursamento público independentemente do valor. A nossa actividade tem que ver com um bem de interesse público enorme. Parece-nos que a forma mais equilibrada e justa do Estado distribuir essas oportunidades têm que ver directamente com o concursamento, que deve ser, aliás, revisto.

 

O que é que está mal?

Muitas vezes há desproporção entre o investimento que tem que fazer-se para ter acesso a esses concursos e as capacidades reais do país. Então o país tem muito menos recursos financeiros e aquilo que se exige a um sector para continuar a ter acesso ao trabalho é ter investimentos enormes como se fosse há 20 anos quando havia recursos diferentes? Alguma coisa tem que ser feita. Dou-lhe um exemplo: abre-se um concurso para uma biblioteca. Há 40 ou 50 gabinetes que investem com o seu trabalho. Esse trabalho corresponde a uma parte significativa do que seria realizar aquele projecto e no entanto só representa ideias. Não pode ser… Num país em que os recursos são tão modestos não se podem desperdiçar capacidades desta maneira.

 

Os processos têm que ser agilizados…

Tem que ser processos de outro tipo. Tem que privilegiar-se a qualidade e não o valor que é outra questão com a qual não concordamos. O que podemos oferecer não pode ser compaginável com uma política de preços. O nosso trabalho não pode ser avaliado exclusivamente sob esse ponto de vista. A qualidade é, no fim de contas, o mais importante. Não se trata de menos informação, mas de informação diferente. Sabemos, por analogia com outros países, que isso é possível. E isso não faz dos outros descuidados. Tem que haver um ajuste para que determinadas áreas tenham acesso ao trabalho.

 

Há muitos favorecimentos?

Gosto de colocar as coisas de outra maneira: se tivermos uma política de concursamento afinada há a garantia de que a distribuição do trabalho é mais equilibrada.

 

Ainda que a escolha possa ser subjectiva…

Isso é sempre. Trabalhamos numa área em que a avaliação é uma ponderação de um conjunto de factores muito diversos.

 

Quais são as grandes prioridades que gostava de desenvolver neste mandato?

Gostava muito de dar continuidade a alguns trabalhos que se iniciaram no mandato anterior que são fundamentais para a nossa classe. Um deles é a Política Nacional de Arquitectura pelos aspectos que pode trazer de reconhecimento da importância desta actividade e do seu interesse público. Uma sociedade sensibilizada para a importância que tem o meio construído no quotidiano passa a encarar um profissional dessa área como uma necessidade. Gostávamos de implementar o Código da Construção em conjunto com o Governo. A ideia era compilar toda a legislação que existe no país muito dispersa, por vezes contraditória, e que é essencial para todos exercerem a sua actividade com ainda maior rigor. Temos que ter um código orientador da profissão e não uma lei que tende a ser desorientadora face ao conjunto de incompatibilidades.

 

E isso já deveria existir há muito…

Há 20 anos... Deveria ter avançado quando iniciámos os programas comunitários. Outro aspecto crucial é a estratégia da internacionalização. Podem abrir-se caminhos interessantes. Não só de exportação de trabalho. Portugal não se pode esquecer que o mundo está diferente. Da mesma forma como Portugal conquistou um estatuto do ponto de vista do reconhecimento dos seus profissionais também interessa a partilha de informação e saber. Temos capacidade, até mais do que no passado, de ter aqui profissionais a participar em acções. E sermos nós próprios chamados para partilhar informação.  

 

Redacção Jornal Arquitecturas

TAGS: Novo presidente da Ordem dos Arquitectos , João Santa-Rita , entrevista , concursos públicos , internacionalização , crise de esperança
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