No espaço da Garagem Sul do Centro Cultural de Belém estiveram expostos 33 projetos de arquitetura, com a curadoria de Tiago Mota Saraiva do Ateliermob, apresentados visualmente sob a forma de maquetas e fotografias integrados na categoria de uma arquitetura social.
Os trabalhos foram concebidos com a assinatura de autores portugueses que fizeram obra nos diversos cantos do mundo que necessitam de intervenção social, com problemas sociais mais prementes desde o Quénia; Namíbia; Cabo Verde; São Tomé e Príncipe; Guiné Bissau; Angola; Moçambique; Brasil; México; Chile; Espanha; Holanda; Estados Unidos e India.
Trata-se de intervenções em campos de refugiados; projetos de escolas e equipamentos públicos; ações temporárias em bairros e espaços públicos; práticas apoiadas em situações emergentes de grande escassez e em contextos de desastre provocando um forte impacto social.
Ao princípio eram as histórias dos amigos, depois apareceram outras pessoas até ganhar forma de exposição.
Estas experiências além-fronteiras estiveram agrupadas em cinco núcleos temáticos que caracterizam o contexto da proposta: a emergência; a escassez; o urbano; o informal e o formal.
Um dos critérios era que os trabalhos fossem feitos no Séc. XXI ou que ainda estivessem a decorrer.
A ideia nasceu de uma situação oportuna de forte emigração, num êxodo geral que levou os portugueses a saírem do País e que tem abrangido particularmente os arquitetos, perante esta situação viram-se forçados a emigrar e a trabalhar no exterior.
Na aceitação da proposta não era relevante a formação específica de arquiteto, por isso encontramos também artistas de intervenção urbana e nomes das ciências sociais.
Dos trabalhos expostos resultou uma visão abrangente de realidades e geografias diversas num panorama multidisciplinar. Para alguns deles, a mostra serviu como uma forma de reconhecimento, sendo a primeira vez que os seus projetos foram vistos em Portugal.
No plano do design expositivo as estruturas modulares de cor azul simulam uma onda que leva o visitante a ir até ao fim da galeria, onde se depara uma parede com um mapa do mundo assinalado a proveniência das intervenções. Para definir as temáticas foi realizado um amplo debate sobre o papel da arquitetura no mundo. Existirá mesmo uma arquitetura social?
No essencial, as opiniões dividem-se em três pontos de vista: - os que entendem que o papel social do arquiteto é inerente à sua profissão; - os que pensam que deverá ser vista como uma especialização e os que afirmam que é um trabalho para as ciências sociais, utilizando a criatividade do espaço e a liberdade artística; ficando em aberto sem conclusões as teses apresentadas.
A exposição visou em suma recolocar o papel da arquitetura no mundo como uma atividade estruturante, na transformação das condições de vida das populações, numa particular relevância em torno da trama da arquitetura social.
Manuela Synek é historiadora e crítica de arte. A autora escreve por opção ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.